Por Elaine Leme
Se há alguém que conhece profundamente a realidade da cena fotográfica brasileira, esse é o professor e curador de fotografia João Kulcsár. Fundador do Festival de Fotografia de Paranapiacaba e do Festival de Fotografia de São Paulo, ele dedicou os últimos anos a promover intercâmbios entre grupos e artistas das artes fotográficas de diferentes estados.
E de 13 a 14 de setembro de 2025, o encontro que ele idealizou chega à sua 8ª edição transformando a Vila de Paranapiacaba, em Santo André (SP), em um verdadeiro museu a céu aberto. Com entrada gratuita, o Festival de Fotografia de Paranapiacaba (FFP) já se consolidou como um dos mais importantes encontros de fotografia do país, reunindo gerações de fotógrafos, artistas visuais e público em torno da imagem.
Instalado em diferentes espaços culturais da vila histórica, com destaque para a antiga estação ferroviária, erguida no século XIX e tombada pelo patrimônio histórico, o Festival revisita a memória visual brasileira e celebra a diversidade da fotografia contemporânea. A cada edição, Paranapiacaba pulsa como território de produção artística, encontros criativos e curadoria inovadora, reforçando o espírito plural que move a cena cultural do país.
Sob direção de João Kulcsár, a programação de 2025 contempla mais de 15 exposições individuais e coletivas, oficinas, debates, projeções, feira fotográfica e lançamentos de livros. A Convocatória 2025 tem como tema “Água”, inspirando artistas a refletirem sobre abundância, ausência e urgência desse elemento essencial.

Entre as mostras em destaques estão “Tomara que amanheça”, de Daniel Camargo Kfouri, com textos de Pe. Júlio Lancellotti; “Forças femininas da floresta”, de Sitah; “Noivas adolescentes”, de Isabeau de Rouffignac; “Nós Madalenas”, de Maria Ribeiro; “Women Street Photographers”, de Gulnara Samoilova; “Mãe Mar”, de Andrea Goldschmidt;” Arquivo Afro Fotográfico”, de Zumvi; e “Frida, beleza e dor”, de Julia Fullerton-Batten.
A fotógrafa e artista visual Maria Ribeiro, que estará expondo no Festival, reflete sobre o seu trabalho: “Durante muito tempo, crescemos vendo nossos corpos e nossas histórias retratados pelo olhar masculino, branco e privilegiado. Isso nos ensinou a nos enxergar a partir de estereótipos e corpos irreais. Minha obra nasce da necessidade de tomar de volta essa narrativa: falar sobre nossos corpos com verdade, com autonomia e protagonismo. Porque só assim criamos conexão, pertencimento e comunidade entre mulheres.”

Para a fotógrafa Isis Medeiros, participar do Festival também carrega um significado potente: “Estar no Festival de Fotografia de Paranapiacaba, 10 anos depois da tragédia-crime de Mariana, é um gesto político e necessário. Minha fotografia nasce do compromisso de lembrar que a lama não acabou, que ela segue correndo pelos rios, pelos territórios e pelas vidas das pessoas atingidas, já a justiça não aconteceu!”, afirma.
“Mas também é um alerta, porque novas barragens podem se romper a qualquer momento. Hoje enfrentamos outros perigos que se somam: o avanço da PL da Devastação, a realização da COP 30 no Brasil em um contexto de graves contradições, e a promessa de uma transição energética que, no nosso país, tem se traduzido em novos projetos de mineração devastadores, inclusive em meu estado, com a corrida pela extração de lítio”, segue Isis.
E a fotógrafa conclui: “Os territórios tradicionais estão cada vez mais em disputa pelas potências internacionais, e é urgente colocar isso em debate. Expor esse trabalho no Festival é afirmar que a arte tem potência de memória e denúncia, mas também de convocação: para que essas histórias não sejam esquecidas, para que a sociedade esteja atenta e se mobilize, e para que possamos construir um futuro que não repita essas tragédias, mas que honre a vida e a resistência de quem morreu pelo interesse de poucos.”

A fotógrafa e artista visual Maria Ribeiro que estará expondo no Festival reflete sobre o seu trabalho.“Durante muito tempo, crescemos vendo nossos corpos e nossas histórias retratados pelo olhar masculino, branco e privilegiado. Isso nos ensinou a nos enxergar a partir de estereótipos e corpos irreais. Minha obra nasce da necessidade de tomar de volta essa narrativa: falar sobre nossos corpos com verdade, com autonomia e protagonismo. Porque só assim criamos conexão, pertencimento e comunidade entre mulheres.”, disse ela.
Já o eixo educativo, pilar do Festival, traz oficinas que exploram a fotografia de forma histórica, poética e lúdica: construção de câmeras obscuras, experimentos com pigmentos naturais, bordado de fotografias como gesto político e caminhadas fotográficas pela vila.
“Todas as atividades e ações do Festival são gratuitas e abertas ao público de todas as idades, desde crianças acompanhadas dos pais até pessoas da terceira idade, passando tanto por quem nunca teve contato com a fotografia quanto por aqueles mais experientes. A programação contempla exposições, oficinas, projeções, feira de fotografias, lançamentos de livros, entre outras ações”, afirma Kulcsár.
“Apostamos também em um programa educativo forte, voltado à alfabetização visual, que estimula a leitura crítica e a criação de imagens de forma consciente. Assim, a Vila se transforma em um espaço de formação e troca, onde a fotografia deixa de ser apenas contemplação e passa a ser diálogo, construção coletiva e vivência compartilhada”, conclui.
Mais sobre o Festival
Já o tradicional Cine Lyra, inaugurado em 1903, será palco de debates com Daniel Camargo Kfouri, Sitah, Gulnara Samoilova, Isis Medeiros e Zumvi, além de lançamentos de fotolivros e da aguardada Feira da Fotografia.
Mais do que um evento cultural, o FFP reforça o compromisso de democratizar o acesso à fotografia e criar diálogos entre arte, educação, inclusão, diversidade e sustentabilidade. Durante dois dias, a vila inglesa recebe olhares múltiplos sobre o mundo contemporâneo e se consolida como palco essencial para a fotografia brasileira.
Neste ano, o Festival amplia seus horizontes ao dialogar com o exterior, reunindo quatro exposições internacionais e mais de 30 países na convocatória.
“A ideia é que o Festival de Paranapiacaba faça essa abertura para o mundo e tenha essa relação a partir de várias parcerias. Traz a diversidade de olhares e amplia o diálogo entre culturas, enriquecendo a experiência tanto para quem está aqui no Brasil quanto para quem acompanha de fora. É também a chance de artistas circularem em um cenário global, trocarem referências e conectarem-se com novos públicos”, afirma o curador.
Ao chegar na Vila de Paranapiacaba, os visitantes têm a sensação de fazer uma verdadeira viagem no tempo. As casas de madeira e a arquitetura inglesa e portuguesa contrastam lindamente com a Mata Atlântica que envolve o lugar. Essa mistura torna a cidade única e encantadora.
Localizada próxima à Serra do Mar, Paranapiacaba ainda guarda um charme especial, a neblina que cobre suas ruas, trazendo um clima misterioso e poético, como se a qualquer momento o passado fosse atravessar o presente.
Para chegar até a Vila de Paranapiacaba, há diferentes opções de transporte. Aos finais de semana, é possível embarcar no trem turístico que parte da Estação da Luz, em São Paulo, oferecendo uma viagem histórica até a vila. Quem prefere transporte rodoviário pode optar pelos ônibus intermunicipais que saem do Terminal de Ônibus de Santo André e levam diretamente até a entrada da vila.
Já de carro, o acesso é feito pela Rodovia Anchieta ou Imigrantes, com conexão ao Rodoanel e à Rodovia Índio Tibiriçá (SP-31), seguindo pela Estrada de Paranapiacaba. Cada trajeto revela um pouco da paisagem da Serra do Mar e prepara os visitantes para a atmosfera singular do destino.
Serviço: 8º Festival de Fotografia de Paranapiacaba
Quando: 13 e 14 de setembro de 2025
Onde: Vila de Paranapiacaba – Santo André (SP)
Horários: Sábado, das 10h às 18h | Domingo, das 10h às 16h
Entrada: Gratuita
Mais informações: www.ffparanapiacaba.com.br
Redes sociais: @festivalfotobrasil