No Jardim América, em Goiânia, a casa onde o escritor Bernardo Élis viveu seus últimos anos passa por um amplo trabalho de restauro. A Casa-Museu Bernardo Élis, que atualmente abriga a sede do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (ICEBE), preserva um capítulo essencial da história literária de Goiás e do Brasil.
Nascido em Corumbá de Goiás, em 1915, foi foi advogado, professor, poeta, contista e romancista. Até hoje, permanece como único goiano a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. A residência, construída em 1974 para ele e sua esposa, a escritora e artista plástica Maria Carmelita Fleury Curado, foi o lar do casal até 1997, ano do falecimento do autor, e seguiu como moradia de Maria Carmelita até 2020, quando ela também faleceu. No mesmo ano, foi fundado o ICEBE.
Quase três décadas após sua morte, o imóvel entra agora em uma etapa final de intervenção, voltada à preservação da memória e do legado do autor goiano.
Restauro da Casa-Museu Bernardo Élis
A obra é executada pela Elysium Sociedade Cultural, instituição com projetos realizados em todo o Brasil há mais de 35 anos. Em Goiânia, o trabalho é viabilizado por recursos da Lei Goyazes 2025. As ações começaram em dezembro de 2025, e têm conclusão prevista para maio de 2026.
Segundo Nilson Gomes Jaime, sócio-fundador e presidente do ICEBE, que acompanha de perto a execução, a situação do imóvel demandava medidas urgentes.
“A Casa-Museu Bernardo Élis encontrava-se em péssimo estado de conservação, com risco de desabamento do telhado, pintura antiga, madeiramento tomado por cupins”, cita.
De acordo com ele, a intervenção contempla a restauração integral das partes superior e inferior da residência, com o objetivo de restabelecer a segurança estrutural e preservar as características originais do imóvel que abrigou a produção intelectual do escritor.
À frente do planejamento, da coordenação técnica e do acompanhamento da execução está o engenheiro civil Pedro Carim. Ele explica que, embora “restauro” seja o termo mais coerente para definir a intervenção, o trabalho desenvolvido na Casa-Museu Bernardo Élis articula diferentes frentes técnicas. “Uma mescla entre restauro, conservação e reabilitação”, resume.
Na prática, segundo o engenheiro, as três abordagens se complementam. “Há, portanto, ações de restauro voltadas à preservação dos elementos históricos do imóvel, o restauro da fachada é um exemplo; ações de conservação visando a segurança e melhoria da vida útil do imóvel. As novas instalações elétricas são exemplo disso; por fim, há intervenções de reabilitação para adequar o imóvel às necessidades atuais do ICEBE”, complementa o responsável pela coordenação técnica dos trabalhos.
Hub cultural e acervo
Para Nilson Gomes, a casa onde Bernardo Élis viveu funciona como um hub cultural no sistema de Casa-Museu. O modelo, é similar a experiências reconhecidas em outras partes do Brasil e no exterior. “A exemplo da Casa Jorge Amado (BA), Casa Gilberto Freyre (PE) e Casa de Cora Coralina (GO) e, em nível internacional, as casas de Pablo Neruda, no Chile, dentre outras.”
Entre as peças preservadas estão o fardão da Academia Brasileira de Letras, cerca de 200 objetos pessoais do escritor, toda a sua produção autoral e uma biblioteca com aproximadamente seis mil volumes. Soma-se a esse conjunto uma pinacoteca composta por 40 obras em óleo sobre tela, assinadas por artistas como DJ Oliveira, Giuseppe Nazareno Confaloni, Amaury Menezes, Luiz Jardim e Elder Rocha Lima, entre outros.
A casa está organizada em dois pavimentos. Na parte superior, encontram-se a sala de exposição, banheiro e sacada. Na parte inferior funcionam a recepção, a sala da presidência do Instituto, a secretaria, o espaço para palestras, escritório e banheiro. Um anexo abriga a biblioteca, a sala de acervo bibliográfico, a sala de acervo especial, dois banheiros e copa. A área externa, com pátio interno, pátio externo e garagem, completa o conjunto que preserva e dinamiza o legado de Bernardo Élis.
“O imóvel foi doado em testamento ao ICEBE e está em processo de execução testamentária. Desde 2024, o Instituto é reconhecido como de utilidade pública municipal e responde pela gestão e manutenção da Casa-Museu”, acrescenta Nilson Jaime.
Parcerias e o que está por vir
O ICEBE construiu, ao longo de sua trajetória, uma rede de parcerias com universidades e instituições culturais de referência, entre elas UFG, UEG, UniAraguaia, Academia Goianiense de Letras, Academia Goiana de Letras (AGL), Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), Instituto Histórico e Geográfico do Tocantins (IHGT), Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (Aplam), Academia Palmeirense de Letras, Artes, Música e Ciência (Aplamc), Associação Goiana de Imprensa (AGI) e Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag).
O instituto foi fundado em 21 de janeiro de 2020 por Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, Nilson Gomes Jaime e outros 13 sócios-fundadores, sob a presidência de honra de Maria Carmelita Fleury Curado. A entidade reúne 120 sócios titulares, além de membros eméritos, efetivos, correspondentes e “ad perpetuam rei memoriam”, e dá continuidade ao trabalho da Associação Cultural Bernardo Élis para os Povos do Cerrado, criada em 1998.
Com o restauro, a meta é consolidar a Casa-Museu como um espaço vivo de cultura, educação e produção intelectual, em sintonia com a missão do ICEBE de preservar o acervo e o legado de Bernardo Élis.
“Após a conclusão da obra, a Casa-Museu será aberta à comunidade com visitas guiadas gratuitas. O espaço também receberá saraus, palestras, atividades de estudo e pesquisa, além de estágios e residências”, arremata o presidente do Instituto.












