Se você mora em Curitiba, provavelmente já viveu essa cena: o céu escurece, a chuva aperta, e minutos depois um cheiro ruim sobe pelo ralo do banheiro ou da área de serviço.
Em alguns bairros, a água suja chega a subir pelo vaso sanitário. Não é falta de sorte, e também não é só “chuva demais”. É a combinação de pelo menos quatro problemas que se alimentam entre si, e que vale a pena entender antes de sair caçando culpados.
O erro mais comum: água de chuva entrando onde não devia
A causa que mais aparece nos relatórios técnicos é simples de explicar e difícil de resolver: casas conectadas à rede errada. Em teoria, todo imóvel deveria ter duas saídas separadas, uma para o esgoto (vaso sanitário, pia, chuveiro, tanque) e outra, maior, para a água da chuva que escorre de calhas e ralos externos. Só que, na prática, muitas construções antigas, e até algumas recentes, feitas sem projeto adequado, ligam a calha direto na rede coletora de esgoto.
O problema é de escala. A tubulação de esgoto é dimensionada para um volume relativamente constante, o que sai da torneira e do vaso sanitário ao longo do dia. Ela não foi projetada para receber, em meia hora, a água que cai sobre um telhado inteiro durante um temporal. Quando isso acontece, o duto enche além da capacidade e a água, agora misturada com esgoto, procura o caminho de volta, que costuma ser a saída mais baixa disponível: o ralo da sua casa.
Empresas de saneamento em todo o país reforçam esse ponto, e a orientação da própria Sanepar é direta: água de calha e ralo externo vai para a galeria pluvial; água de banheiro, pia e tanque vai para a rede de esgoto. Nunca as duas coisas juntas. Procuramos informações com a desentupidoraemcuritiba.com.br. Segundo a empresa de desentupimento credenciada com mais de 20 anos de atuação, relatou o que vem a seguir.
Gordura e lenço umedecido: o entupimento que começa na cozinha
Existe um segundo vilão, menos falado, mas talvez ainda mais frequente: o entupimento por mau uso da própria rede. Levantamento da Sanepar mostrou que, ao longo de 2023, as equipes precisaram desobstruir trechos da rede coletora de Curitiba 22 vezes por dia, somando 682 ocorrências mensais causadas só por acúmulo de gordura. Óleo de cozinha jogado na pia esfria, gruda nas paredes do cano e vira um ponto de retenção, depois vem o lenço umedecido, que ao contrário do papel higiênico não se desfaz na água, prende naquele ponto engordurado e forma um tampão compacto.
Em dia de chuva normal, esse tipo de entupimento parcial talvez passe despercebido. Mas quando o volume de água que passa pela tubulação aumenta de repente, seja por chuva forte, seja por ligação clandestina de água pluvial, qualquer estrangulamento no cano vira gargalo, e o refluxo aparece primeiro nas casas mais baixas do trecho.
A topografia de Curitiba não ajuda
Curitiba tem um relevo relativamente plano no centro, mas cortado por vários fundos de vale, os rios Belém, Água Verde, Vila Guaíra, Atuba, Iguaçu, Cascatinha, Pilarzinho, entre outros, que historicamente concentram a drenagem da cidade. Bairros construídos perto desses fundos de vale, ou em regiões mais baixas em relação ao entorno, recebem não só a própria chuva, mas o escoamento de tudo que está morro acima. É por isso que certas regiões “viram rio” a cada temporal, enquanto ruas próximas, um pouco mais altas, praticamente não sofrem.
Some a isso décadas de impermeabilização, mais asfalto, mais telhado, menos terra exposta absorvendo água, e o resultado é um volume de escoamento superficial muito maior do que o sistema de drenagem foi projetado para receber quando boa parte da cidade ainda tinha áreas verdes suficientes para segurar a água da chuva.
Infraestrutura antiga, cidade em crescimento
Parte da rede de esgoto e de drenagem de Curitiba foi projetada décadas atrás, para uma população e uma taxa de impermeabilização bem menores do que as atuais. Bairros mais antigos, com tubulações de diâmetro reduzido, sentem isso primeiro. Some a isso o crescimento urbano, mais gente, mais construções, mais água usada e mais água escoando, e fica claro por que alguns pontos da cidade viraram “clássicos” de alagamento e retorno de esgoto a cada verão.
Em fevereiro de 2026, um temporal com 55 mm concentrados em poucas horas, volume equivalente a cerca de dez dias de chuva, voltou a expor esse gargalo em bairros como Xaxim e no entorno do Ribeirão dos Padilhas, levantando outra vez, na Câmara Municipal, o debate sobre drenagem. Poucos meses depois, em junho de 2026, chuvas intensas também provocaram o rompimento de uma adutora na Cidade Industrial de Curitiba, mostrando que a rede de saneamento da cidade opera com pouca margem de segurança quando o volume de água sobe rápido.


O que Curitiba está fazendo para resolver isso
Não é só reclamação: há obras em andamento. A Prefeitura mantém atualmente quatro grandes obras de macrodrenagem em execução, como bacias de detenção nos rios Cascatinha e Pilarzinho, feitas para segurar o excesso de água antes que ele vire enchente, além de outras oito intervenções contratadas ou em fase de licitação, dentro do programa PRO Curitiba, que prevê mais de R$ 6 bilhões em investimentos até 2028.
A cidade também mudou a legislação. Desde janeiro de 2026, uma nova lei municipal (16.582/2025) passou a reconhecer oficialmente os chamados “jardins de chuva”, pequenas depressões no solo que retêm e filtram água pluvial no próprio local, como parte da política de drenagem urbana, ao lado de soluções mais tradicionais como valas verdes e parques lineares. A ideia por trás disso é conhecida como “cidade-esponja”: em vez de só canalizar a água o mais rápido possível para longe, tentar absorver parte dela onde ela cai.
No dia a dia, cerca de 30 equipes da Secretaria Municipal de Obras Públicas circulam pela cidade fazendo limpeza e desobstrução preventiva de córregos e galerias, como o trecho de quase dois quilômetros do Córrego Olindo Caetano, na Regional Cajuru, justamente para reduzir o risco de transbordamento antes que a próxima chuva forte chegue.
O que dá para fazer na sua casa
Nem tudo depende de obra pública. Algumas medidas simples, do lado do morador, reduzem bastante a chance de o esgoto voltar:
- Verifique se a calha e os ralos externos da sua casa estão ligados na rede pluvial, e não na rede de esgoto. Em caso de dúvida, vale chamar um profissional ou consultar a concessionária.
- Nunca jogue óleo de cozinha na pia, guarde em uma garrafa e descarte em pontos de coleta.
- Evite descartar lenços umedecidos, fraldas ou absorventes no vaso sanitário, mesmo que a embalagem diga “biodegradável”.
- Nunca abra a tampa da caixa de inspeção de esgoto para escoar água de chuva da rua. Isso alivia o problema na sua calçada, mas empurra areia e lixo para dentro da rede, entupindo o sistema mais à frente.
- Instale válvula de retenção (check-valve) no ramal de esgoto de imóveis em regiões historicamente baixas, é um investimento pequeno perto do prejuízo de uma casa alagada com esgoto.
No fim das contas, o retorno de esgoto durante chuva forte em Curitiba é resultado de vários fatores empilhados: ligações irregulares de água pluvial na rede de esgoto, entupimentos por gordura e lenço umedecido, topografia com fundos de vale que concentram água, impermeabilização do solo e trechos de infraestrutura que ainda não acompanharam o crescimento da cidade. A boa notícia é que parte disso está sendo enfrentada com obras e mudanças na legislação, e a outra parte, menor mas relevante, está literalmente nas mãos de quem usa a rede todos os dias.
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