Na oficina de João Ferreira, no bairro do Brás, em São Paulo, a fila de aparelhos esperando atendimento cresceu tanto nos últimos dois anos que ele precisou contratar um ajudante pela primeira vez em vinte e três anos de ofício.
Na bancada, três TVs de LED aguardam laudo. No canto, um micro-ondas de marca premium com placa queimada.
“Antes, o pessoal trazia o aparelho com cara de quem não tinha escolha. Hoje, muita gente vem porque quer mesmo”, conta, sem levantar os olhos de uma placa-mãe aberta.
Esse cenário, que se repete em centenas de assistências técnicas pelo Brasil, é o sintoma visível de uma mudança de comportamento que economistas, especialistas em consumo e técnicos do setor estão acompanhando com interesse crescente.
O conserto de eletrodomésticos, e em particular a manutenção de TVs e o reparo de micro-ondas, deixou de ser uma decisão tomada apenas por necessidade financeira e passou a ser, para uma parcela relevante dos consumidores, uma escolha consciente.

Quando o preço do novo empurra para o conserto
A inflação nos preços de eletrodomésticos foi um dos gatilhos mais diretos desse movimento. Entre 2021 e 2024, o preço médio de uma TV de 50 polegadas no Brasil subiu de forma consistente, impulsionado por câmbio desfavorável, escassez de semicondutores e reajustes em cascata na cadeia de suprimentos. Comprar um aparelho novo de qualidade equivalente ao que quebrou ficou, para muita família, fora do orçamento imediato.
O micro-ondas, eletrodoméstico presente em mais de 60% dos lares brasileiros segundo dados do IBGE, seguiu trajetória parecida. Um reparo de magnetron, o componente que efetivamente gera o calor, custa entre R$ 150 e R$ 280 numa assistência técnica de confiança.
O aparelho novo equivalente sai por R$ 600 a R$ 900. A relação custo-benefício do conserto raramente foi tão favorável.
“O que mudou não foi só o preço. Mudou o cálculo que o consumidor faz antes de decidir. Ele compara, pesquisa, e muitas vezes descobre que consertar é a opção mais inteligente — e não apenas a mais barata.”, diz economista de consumo, consultora de varejo com 15 anos de atuação no setor de eletroeletrônicos.
A geração que não quer ser chamada de descartável
Mas reduzir o fenômeno ao bolso seria simplificar demais. Há um componente geracional que os técnicos mais atentos percebem na prática. Consumidores entre 25 e 40 anos, a chamada geração que cresceu com a pauta ambiental como parte do cotidiano, aparecem cada vez mais nas assistências técnicas não porque não podem comprar um produto novo, mas porque preferem não fazê-lo.
O conceito de economia circular, que propõe prolongar a vida útil dos produtos como alternativa ao descarte antecipado, ganhou tração fora dos relatórios corporativos e entrou, aos poucos, na rotina de quem decide o que fazer com um aparelho que parou de funcionar. A sustentabilidade no consumo de eletrônicos deixou de ser pauta só de nicho.
“Meu micro-ondas tem doze anos. Quando parou de girar, fui direto ao técnico. Não faz sentido jogar fora algo que pode ser consertado.”, cliente em Recife, ramo administrativo, 33 anos.
Esse depoimento poderia ter vindo de dezenas de consumidores ouvidos para esta reportagem. A lógica é semelhante: o aparelho foi comprado com dinheiro suado, funcionou por anos, e uma falha pontual não deveria ser sentença de morte para um produto que, estruturalmente, ainda tem vida pela frente.
O lado técnico: o que realmente pode ser consertado
Do ponto de vista técnico, a maioria das falhas mais comuns em TVs e micro-ondas não é estrutural, e esse é um dado que poucos consumidores conhecem. Nas TVs de LED e QLED, os defeitos mais frequentes envolvem placa de fonte queimada, falha no backlight (a iluminação traseira), e problemas na placa principal de processamento. Todos são reparáveis quando o técnico tem as peças certas e o conhecimento adequado.
Nos micro-ondas, o magnetron tem vida útil longa e, quando falha, pode ser substituído. O prato giratório, o fusível térmico, o transformador de alta tensão, são componentes que têm reposição no mercado nacional, ainda que a oferta tenha se tornado mais irregular nos últimos anos com a consolidação de marcas asiáticas no segmento.
“Hoje eu recuso mais serviço do que antes, mas porque tenho mais trabalho, não porque faltam peças. O estoque de componentes para TVs das principais marcas melhorou muito. O problema é a mão de obra qualificada, que sumiu durante a pandemia e não voltou completamente.”, diz técnico com 19 anos de experiência, proprietário de assistência técnica autorizada em Belo Horizonte assistência técnica autorizada.
Quando consertar compensa: guia prático

A cadeia que cresce ao redor: peças, cursos e plataformas
O aquecimento da demanda por reparo de eletrodomésticos não ficou isolado nas bancadas das assistências técnicas. Ele criou ondas em toda a cadeia. Distribuidoras de componentes eletrônicos relatam crescimento nas vendas de peças para o varejo B2B. Cursos técnicos de manutenção de eletrônicos, presenciais e online, registraram aumento de matrículas. Plataformas de agendamento de assistência técnica residencial ganharam tração em cidades médias e grandes.
Esse ecossistema em expansão é ao mesmo tempo consequência e combustível do movimento. Quanto mais fácil fica encontrar um técnico confiável e agendar o serviço com transparência de preço, mais consumidores optam pelo reparo. Quanto mais essa demanda cresce, mais investimento entra no setor.
O que ainda trava: a garantia e a desconfiança
Nem tudo é crescimento linear. O setor ainda convive com gargalos relevantes. O primeiro é a desconfiança do consumidor em relação a assistências técnicas não autorizadas, um receio legítimo, alimentado por histórias de serviços mal feitos e cobranças abusivas. A falta de regulamentação clara da profissão no Brasil agrava esse quadro: qualquer pessoa pode abrir uma assistência técnica, independentemente de capacitação formal.
O segundo gargalo é a questão da garantia pós-reparo. Diferentemente de um produto novo, que vem com garantia legal de 90 dias a um ano, um aparelho consertado depende da política individual de cada técnico. Alguns oferecem garantia de 30 a 90 dias no serviço realizado; outros não formalizam nada. Para o consumidor que está acostumado ao conforto da garantia do fabricante, essa incerteza pesa na decisão.
O que esperar dos próximos anos
O horizonte do setor de manutenção de eletrodomésticos no Brasil guarda algumas variáveis relevantes. Por um lado, a política de obsolescência programada, prática de fabricar produtos com vida útil artificialmente reduzida, está cada vez mais no radar regulatório de países da União Europeia, com pressão crescente sobre o Brasil a seguir tendências similares. O chamado “direito ao reparo” avança como pauta legislativa em múltiplos mercados.
Por outro lado, a crescente integração de componentes em TVs modernas, com processadores e memórias soldados diretamente à placa, sem possibilidade de substituição modular, ameaça tornar o reparo tecnicamente mais difícil e caro em produtos de última geração. O paradoxo é real: ao mesmo tempo em que mais consumidores querem consertar, os produtos ficam mais difíceis de consertar.
Para João Ferreira, de volta à bancada do Brás, a resposta a esse paradoxo é pragmática. “Enquanto tiver jeito de abrir e identificar o problema, eu vou resolver. E enquanto o preço do produto novo continuar lá em cima, o pessoal vai continuar chegando aqui.” Ele fecha a tampa da TV, liga o aparelho. A imagem acende. Mais um aparelho salvo do descarte.
*Este material é de responsabilidade da equipe Goomarketing e não representa, necessariamente, a posição editorial do Portal Dia.




